“Marcha Triumphal Gualdim Pais”, da autoria de Alfred Keil (1895)

O ano de 1895 assinala um marco significativo na história cultural de Tomar: o Centenário de D. Gualdim Pais. Idealizado por José Vieira da Silva Guimarães, na altura estudante de Medicina, o evento procurou celebrar a vida e o legado do quarto mestre da Ordem dos Templários e fundador do castelo de Tomar.

Entrada da Corredoura durante o Centenário de 1895

O evento, que decorreu entre os dias 13, 14 e 15 de outubro de 1895, com forte divulgação na imprensa nacional, mobilizou a cidade em diversas atividades comemorativas. A programação contemplou a decoração de ruas e monumentos, diversos festejos populares e uma exposição industrial e agrícola. Os organizadores aproveitaram o ensejo para propor erguer uma estátua a D. Gualdim Pais e para sensibilizar a população para a conservação dos monumentos históricos de Tomar.

Uma das composições de maior relevo, desenvolvida especificamente para a ocasião, foi a “Marcha Triumphal Gualdim Pais”, da autoria de Alfred Keil (1850-1907). Nascido em Lisboa, este compositor e maestro luso-alemão foi uma figura de proa na música erudita da época, dedicando a sua vida à arte. É o autor do atual hino nacional português, “A Portuguesa”.

Alfred Keil, o autor da “Marcha Triumphal Gualdim Pais”

A utilização da composição musical “Marcha Triumphal Gualdim Pais” pelas Infantarias 5 (de Mafra) e 11 (de Tomar) no dia 13 de outubro de 1895 — o dia principal do Centenário — foi registada nos jornais locais A Verdade e o O Thomarense.

Uma marcha é uma forma de composição musical com um ritmo forte e regular, ideal para acompanhar desfiles, procissões ou eventos militares.

O seu propósito é ritmar os passos de um grupo de pessoas, e por isso o seu ritmo é muito marcado e facilmente reconhecível.

Jornal A Verdade, Nº807.
Jornal O Thomarense, Nº613

Atestado pelo jornal A Verdade, o acontecimento do Centenário é pormenorizado pelo jornal O Thomarense, que delimita a celebração musical para o momento imediato ao “lançamento da pedra” pelo então presidente de Câmara João Torres Pinheiro ( a 13 de outubro de 1895) para a futura estátua (inaugurada a 9 de julho de 1940) em memória de D. Gualdim Pais.

Estátua localizada na Praça da República em Tomar, que na altura do ato da colocação da primeira pedra em 1895 se denominava Praça D. Manuel

A sua amizade com Vieira Guimarães reveste-se de grande importância. A frequência das visitas e da correspondência atestam uma ligação pessoal profunda que valoriza a sua colaboração para o Centenário.

Carta de Vieira Guimarães para Alfred Keil (cortesia Paulo Guilherme Peixoto)

A amizade entre Vieira Guimarães e Alfred Keil encontra-se bem documentada na correspondência por eles mantida. A proximidade afetiva entre os dois intelectuais é evidenciada em cartas como a assinada por Vieira Guimarães a 7 de agosto de 1897 e a de Alfred Keil a 27 de setembro de 1898.

No excerto da missiva de Vieira Guimarães, podemos ler: “Meu Sr, amigo e Irmão Alfredo Keil” (…) “Foi com grande pena que hoje pela manhã recebi a nova de V. Exª ter passado em Thomar e eu não ter tido o prazer de abraçar a V. Exª e comprimentar sua illustre familia.”

No que respeita à carta de Keil, destinada a Vieira Guimarães, esta menciona o envio de 70 exemplares da “Marcha Triumphal Gualdim Pais”. A sua despedida, “Atento venerador e amigo”, reforça a profunda amizade que os unia. Necessário realçar a forma escrita com que o seu autor denomina a composição nesta carta, “Marcha Triumphal Gualdim Pais”, pelo que é a que utilizamos no presente artigo.

Capa da composição

A edição original da composição de Alfred Keil encontra-se digitalizada e disponível para consulta na plataforma da Biblioteca Nacional de Portugal.

A inclusão desta composição no presente espaço online transcende a mera função estética. Ela atua como um documento sonoro, testemunhando uma colaboração intelectual e cultural de grande relevância. A sua presença no site sublinha a importância de manter viva a memória e o legado histórico de Vieira Guimarães através de fontes primárias.

De assinalar que a intérprete da presente gravação (Afinaudio (c), 2013) é a Sociedade Filarmónica Gualdim Pais sob a direção de Hermenegildo Campos, associação que tem o apadrinhamento do Dr. Vieira Guimarães em 1898.

A celebração do Centenário de D. Gualdim Pais em 1895, idealizado por José Vieira da Silva Guimarães, constitui um marco histórico na preservação da memória de Tomar. O evento não se limitou a uma simples festividade, mas representou um esforço comunitário consciente para honrar e perpetuar o legado do fundador de Tomar.

Neste contexto, a “Marcha Triumphal Gualdim Pais” de Alfred Keil emerge como um testemunho sonoro de grande relevância histórica. A sua criação atesta uma colaboração intelectual de vulto.

A reinterpretação contemporânea pela Sociedade Filarmónica Gualdim Pais reforça a importância de manter viva a memória histórica de Vieira Guimarães.