O projeto visionário que uniu o património da Estremadura, o termalismo do Agroal e o progresso ferroviário no nascimento do turismo moderno em Portugal.
A “Trilogia Monumental” é um dos conceitos mais visionários idealizados pelo Dr. José Vieira Guimarães, consubstanciando a sua profunda convicção de que o turismo seria um motor económico e civilizacional fundamental para Portugal. Esta visão integrou a sua constante defesa do património, aliada à necessidade premente de modernizar as vias de comunicação do país.
A Defesa da Indústria do Turismo (1912)
Para Vieira Guimarães, o turismo não era apenas lazer; era uma verdadeira “indústria cuja matéria-prima é o excursionista” e da qual dependia o futuro e a riqueza da nação.
Em 1912, já com o cargo de Diretor da Sociedade Propaganda de Portugal (SPP), utilizou esta prestigiada instituição pioneira para alavancar a sua visão. Foi na sede da SPP, a 17 de junho de 1912, numa conferência presidida pelo seu amigo Sebastião Magalhães Lima, que apresentou detalhadamente o projeto da “Trilogia Monumental de Alcobaça, Batalha, Thomar e a via férrea”, que seria posteriormente publicado em livro.
Os “Três Poemas em Pedra”
O médico e historiógrafo identificou na região três dos maiores monumentos portugueses, defendendo que cada um eternizava uma época gloriosa e um pilar da identidade nacional:
Mosteiro de Alcobaça
Representava os rudes trabalhos e a determinação do “Conquistador” e Fundador da pátria, D. Afonso Henriques.
Mosteiro da Batalha
Simbolizava as heroicas façanhas da mítica “Ala dos Namorados” e a afirmação da independência na vitória em Aljubarrota.
Convento de Cristo (Tomar)
Personificava os feitos imortais dos discípulos do “Navegador”, a epopeia da Era dos Descobrimentos e a expansão ultramarina portuguesa.
O grande problema apontado por Vieira Guimarães era que esta “excelsa trilogia monumental” se encontrava gravemente afastada das principais linhas férreas por “grandes e aborrecidas distâncias”, o que dificultava enormemente a captação e o conforto de visitantes nacionais e estrangeiros.
A Linha de Turismo: Do Entroncamento à Nazaré
Para resolver este isolamento e potenciar a economia, propôs a construção de uma ambiciosa linha férrea de vocação turística, desenhando um roteiro contínuo e altamente estratégico:
O Começo no Entroncamento
A escolha deste nó ferroviário foi estratégica por “terem ali paragem todos os comboios”, garantindo a receção e ligação direta dos turistas provenientes tanto de Lisboa como do Porto.
A Passagem por Tomar e a Estância do Agroal
A linha seguiria pelo vale do Nabão até Tomar, incluindo obrigatoriamente o Agroal. Como médico, Vieira Guimarães era um fervoroso apologista das virtudes terapêuticas destas águas, chegando a comparar o Agroal à famosa estância de Plombières, em França, aliando o turismo monumental ao termal.
O Fio Condutor Monumental
A locomotiva prosseguiria caminho por Ourém e Fátima, servindo diretamente o Mosteiro da Batalha (com um ramal previsto para Leiria) e cruzando as terras até ao Mosteiro de Alcobaça.
O Términus na Nazaré
O trajeto morreria na icónica praia da Nazaré, um local que o Doutor considerava absolutamente notável por múltiplos títulos na geografia nacional: “na therapeutica, na lenda e na historia”.
Impacto Económico e a Persistência da Visão
O projeto não era apenas romântico; era rigorosamente fundamentado em matemática económica. Vieira Guimarães calculou que esta linha atrairia inicialmente cerca de 20.000 excursionistas por ano. Gastando cada um cerca de 5.000 réis nas localidades, a linha distribuiria a “bonita soma de 100 contos” pela região, valor que na época equivaleria ao impacto financeiro da fundação de grandes complexos fabris.
A persistência do Dr. Vieira Guimarães nesta ideia foi notável. O governo de Portugal chegou a adjudicar a construção da linha Tomar-Nazaré em 1913, mas o eclodir da Primeira Guerra Mundial e a subsequente crise económica global inviabilizaram o início das obras. Ainda assim, o ilustre tomarense nunca desistiu.
Vinte e quatro anos após a apresentação na SPP, participou ativamente no I Congresso Nacional de Turismo em 1936, onde voltou a defender tenazmente a mesma “Trilogia Monumental” e a linha férrea até à Nazaré, argumentando que era imperativo criar infraestruturas para captar e encaminhar os 50.000 turistas que desembarcavam anualmente no porto de Lisboa.
Em suma: O conceito da “Trilogia Monumental” prova de forma inequívoca que Vieira Guimarães não era apenas um conservador do passado, mas um autêntico visionário do ordenamento do território e do turismo nacional, unindo o património, a saúde (termalismo e praias) e as acessibilidades (redes de transporte) num projeto integrado de exaltação patriótica e desenvolvimento regional.
