Os Templários em Tomar: o berço espiritual de pedra

Segundo a perspetiva historiográfica de José Vieira Guimarães, a presença dos Templários em Tomar não é um mero capítulo da Idade Média: confunde-se com o próprio processo de afirmação, consolidação e defesa da nacionalidade portuguesa.

No centro deste episódio encontra-se D. Gualdim Pais, mestre da Ordem do Templo em Portugal e companheiro de armas de D. Afonso Henriques, que sucedeu D. Pedro Arnaldo. Com experiência militar adquirida no Oriente durante as Cruzadas, Gualdim Pais terá reconhecido as fragilidades do sistema defensivo então existente, optando, em 1160, pelo abandono do castelo de Ceras, já arruinado, e pela fundação de um novo centro estratégico de operações.

Em 1 de março desse ano, foram lançados os alicerces do castelo de Tomar, implantado num monte sobranceiro ao rio Nabão e sobre vestígios da antiga cidade romana de Seilium. A escolha do local correspondia a uma lógica militar precisa, na medida em que permitia vigiar e conter as incursões provenientes do sul. No núcleo da fortaleza, o mestre mandou erguer a Charola, capela de planta octogonal inspirada em modelos da arquitetura bizantina e na igreja do Santo Sepulcro de Jerusalém, onde, segundo a tradição, os cavaleiros poderiam assistir ao ofício divino sem desmontar.

“No núcleo da fortaleza, o mestre mandou erguer a Charola, capela de planta octogonal inspirada em modelos da arquitetura bizantina e na igreja do Santo Sepulcro de Jerusalém.”

A solidez da fortificação seria posta à prova em 1190, quando D. Gualdim Pais, já em idade avançada, dirigiu a resistência ao cerco de seis dias imposto pelo califa almóada Abu Yusuf Yaqub al-Mansur. A resistência do castelo consolidou a memória de Tomar como praça-forte decisiva na contenção do avanço almóada e na defesa do jovem reino português, embora importe reconhecer que, à semelhança de outros episódios de fronteira medievais, a tradição historiográfica posterior terá porventura ampliado o seu efetivo alcance estratégico.

Se, em Portugal, os Templários foram amplamente entendidos como aliados fundamentais do processo da Reconquista, o panorama europeu do início do século XIV revelou-se substancialmente distinto. Ao longo de quase dois séculos, a Ordem do Templo acumulou um património vasto e uma influência considerável, administrando numerosas comendas em diferentes regiões da Europa, circunstância que contribuiu para a tornar objeto de suspeita, hostilidade e cobiça.

Em França, Filipe IV, confrontado com sérias dificuldades financeiras e empenhado na afirmação da autoridade régia, desencadeou, a partir de 1307, um processo contra os Templários, sustentado em acusações de heresia e de práticas sacrílegas. Sob forte pressão da monarquia francesa, o papa Clemente V acabaria por decretar a extinção da Ordem no Concílio de Vienne, em 1312. A historiografia contemporânea tende a interpretar este processo como o resultado de uma convergência de fatores políticos, financeiros e institucionais, em que a imputação de heresia funcionou menos como expressão de uma preocupação estritamente doutrinal do que como instrumento de ação régia.

Em Portugal, pelo contrário, o desfecho assumiu contornos distintos. Perante as intenções da Cúria pontifícia de redistribuir os bens templários portugueses, nomeadamente através da intervenção do cardeal Bertrand de Déaulx, a Coroa procurou preservar esse património no interior da esfera política do reino. Reconhecendo a relevância militar e territorial da Ordem no contexto da Reconquista, o poder régio evitou a perseguição direta dos freires em solo português, definindo uma linha de proteção e reaproveitamento institucional que distingue claramente o caso português do desfecho francês.

A transição da estrutura templária para uma nova instituição é geralmente interpretada como uma solução politicamente hábil promovida por D. Dinis. Consciente de que uma resistência aberta e prolongada às determinações pontifícias dificilmente seria sustentável, o monarca procurou retardar os procedimentos em curso, criando margem negocial para assegurar a preservação do património e da base institucional sediada em Tomar.

Em 1319, D. Dinis obteve de João XXII autorização para instituir a Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo, para a qual transitaram os bens e rendimentos anteriormente pertencentes aos Templários em Portugal. Numa fase inicial, e por cautela no quadro das relações com a Santa Sé, a sede da nova milícia foi fixada em Castro Marim, no Algarve, sendo apenas mais tarde transferida para o castelo de Tomar.

Importa, contudo, distinguir continuidade institucional de continuidade pessoal. Se a passagem de património, funções e enquadramento político entre a Ordem do Templo e a Ordem de Cristo é amplamente reconhecida, subsistem divergências historiográficas quanto ao grau de incorporação automática dos antigos freires templários na nova ordem, bem como quanto à efetiva renovação dos seus quadros humanos.

Ainda assim, foi a Ordem de Cristo que, já no século XV, particularmente sob a direção do Infante D. Henrique, assumiu um papel central no enquadramento e financiamento da expansão portuguesa. A presença da sua cruz nas velas das embarcações tornou-se, por isso, um dos símbolos mais duradouros da articulação entre o legado das ordens militares medievais e o ciclo dos Descobrimentos. É sobretudo nessa continuidade simbólica, mais do que numa linhagem pessoal direta entre Templários e membros da nova milícia, que Tomar se afirma como lugar de charneira entre o universo das Cruzadas e a expansão ultramarina portuguesa.

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