Tomar e os fragmentos do tempo: a herança da UAMOC e o nascimento do museu “Cidade”

A preservação da memória urbana e arquitetónica debate-se frequentemente entre as forças contraditórias do progresso material e do culto da antiguidade. Na viragem para o século XX, a pequena cidade de Tomar converteu-se num singular laboratório de património, onde a necessidade higienista e industrial de modernização coexistiu com o nascimento de um moderno espírito de salvaguarda cívica. É no seio deste embate teórico e prático que surge a União dos Amigos dos Monumentos da Ordem de Cristo (UAMOC), fundada a 15 de maio de 1918 durante a Primeira República Portuguesa. Esta associação cívica, cujo logótipo foi oficialmente aprovado a 25 de janeiro de 1919, nasceu como uma reação direta da sociedade civil contra a incúria das autoridades públicas e o vandalismo que ameaçavam a integridade física do Convento de Cristo e do Castelo de Tomar.

A orgânica fundadora da UAMOC reflete uma engenhosa arquitetura de poder e pacificação social. O seu primeiro presidente foi o Tenente-Coronel Francisco Augusto Garcez Teixeira (1869-1946), um militar e engenheiro de prestígio vindo do exterior, cuja neutralidade e ausência de “anticorpos” políticos na cidade permitiram unir fações locais historicamente desavindas. Sob a sua égide, a associação congregou, logo nas primeiras listas de sócios, inimigos políticos declarados: o médico e historiador Dr. José Vieira da Silva Guimarães e o influente Presidente da Câmara Municipal, João Torres Pinheiro. A mediação diplomática de Garcez Teixeira revelou-se crucial para viabilizar o histórico encontro de 10 de setembro de 1919, onde estas figuras se sentaram à mesma mesa em prol do património nabantino. O corpo diretivo inicial completava-se com o tesoureiro José António Padesca Brak-Lamy e o secretário Luís Arruda Pereira, diretor do influente semanário local A Nabancia.

União dos Amigos dos Monumentos da Ordem de Cristo
A UAMOC, fundada em 1918, reuniu à mesma mesa figuras politicamente rivais em prol do património nabantino

A intervenção teórica de Vieira Guimarães (sócio nº1) no seio da UAMOC revelou-se pioneira no panorama nacional ao introduzir o conceito da salvaguarda e reaproveitamento prático dos fragmentos materiais da cidade em transformação. Atento à rápida metamorfose urbana promovida pelo “camartelo da civilização” (como lhe chamava) força que o autor simultaneamente lamentava e aceitava como uma necessidade sanitária; Vieira Guimarães e os agentes da UAMOC mapearam exaustivamente as “casas notáveis de Tomar”, identificando janelas, portais e varandas de lavrada cantaria quinhentista e seiscentista em edifícios ameaçados de ruína ou alteração profunda.

Num tempo em que o dogma do restauro estilístico imperava, o médico-arqueólogo propôs uma alternativa ética e prática: extrair estes elementos arquitetónicos antes da demolição das casas, guardá-los temporariamente num núcleo museológico no Convento de Cristo e, posteriormente, reinstalá-los em novas construções urbanas. A fundação deste museu foi deliberada na histórica ata de 21 de outubro de 1918, tendo o advogado Dr. Libério Mourão como encarregado dos serviços do museu, arquivo e biblioteca. Originalmente instalado na Sala do Refeitório do Convento de Cristo, o acervo foi deslocalizado em 1923 (por força da instalação do Colégio das Missões Ultramarinas) para a Casa do Capítulo Incompleta, transitando em 1940 para o piso inferior do restaurado Claustro da Lavagem (Museu Lapidar) para evitar a erosão dos elementos.

Museu Lapidar, Claustro da Lavagem, Convento de Cristo
O Museu Lapidar, no Claustro da Lavagem, guarda hoje o acervo reunido pela UAMOC desde 1918

Este processo de reaproveitamento de fragmentos obteve o seu expoente máximo em 1933, com a construção da sede da Comissão de Iniciativa de Turismo (o atual Posto de Turismo de Tomar). O edifício foi construído incorporando peças quinhentistas salvaguardadas e cedidas pelo museu da UAMOC (que salvaguardava temporariamente os elementos provindos da cidade), tais como a janela de esquina do antigo Palácio do d. Prior (que se situava entre a Rua de S. João e a Rua dos Moinhos), portais do edifício dos Cubos e uma janela geminada do Palácio Lencastre (onde funcionara o Teatro Nabantino). Esta prática materializou, de forma vanguardista, o conceito de “cidade antiga” como um museu dinâmico e funcional a céu aberto, oposto à pura imobilidade arqueológica.

Posto de Turismo de Tomar, edifício de 1933
O Posto de Turismo de Tomar (1933), erguido com peças quinhentistas salvaguardadas pela UAMOC (uma visão de Vieira Guimarães)

No entanto, a história da salvaguarda patrimonial em Tomar reserva uma dolorosa e profunda ironia que recaiu sobre o próprio Vieira Guimarães, que anos antes da criação da UAMOC, tinha deslocado uma janela manuelina em vias de ser demolida para a sua nova casa junto ao Nabão. Entre os finais do século XIX e inícios do século XX, movido pelo seu acérrimo amor patriótico e pelo desejo de construir uma habitação que espelhasse as glórias da arquitetura nacional, o médico ergueu a sua residência rural na Quinta de Marmelais de Baixo. A casa foi desenhada seguindo a estética da tradicional “casa portuguesa”, e nela Vieira Guimarães incorporou uma janela original de lavrada cantaria manuelina, resgatada de uma habitação em vias de demolição na antiga Rua da Levada (atual Rua João Carlos Everard; Levada). Esta janela revestia-se de um valor documental extraordinário por ter sido desenhada e publicada numa obra literária pelo reputado arquiteto e historiador alemão Karl Albrecht Haupt, na sua passagem pela cidade em 1888, quando este elemento ainda se encontrava no seu local de origem.

Quinta de Marmelais de Baixo
A Quinta de Marmelais de Baixo, residência de Vieira Guimarães junto ao Nabão

Vieira Guimarães transformou o interior da Quinta de Marmelais num verdadeiro museu privado de recordações turísticas, exibindo desde fragmentos de muralhas trazidos de Ceuta e Tanger até ricas coleções de cerâmica e talha tradicional tomarense. Em testamento, com o propósito de garantir a perenidade do seu legado e a fruição pública do espaço, Guimarães doou generosamente a propriedade à Câmara Municipal de Tomar. Contudo, num desfecho quase trágico, a própria Quinta de Marmelais foi barbaramente demolida décadas mais tarde para dar lugar aos atuais viveiros municipais. O homem que conceptualizara e introduzira na UAMOC a prática sistemática de salvar os fragmentos materiais do tempo viu a sua própria morada (e a icónica janela manuelina de Haupt que nela guardava) sucumbir debaixo do mesmo camartelo destruidor que combatera incansavelmente ao longo de toda a sua vida.

A herança da UAMOC e o destino trágico da Quinta de Marmelais recordam-nos de que o património de Tomar não foi apenas moldado pela monumentalidade do complexo do Convento de Cristo, mas também pela fragilidade da burocracia e pelo embate constante das memórias na chancelaria da história local. Hoje, quando os visitantes observam os relevos integrados nas fachadas do Posto de Turismo ou contemplam as estelas no Museu Lapidar no Claustro da Lavagem, vislumbram os fragmentos de uma cidade antiga que foi salva e recriada pelo esforço obstinado de cidadãos como Vieira Guimarães e Garcez Teixeira.

Janela do Palácio do Prior-Mór da Ordem de Cristo
A janela do Palácio do Prior-Mór da Ordem de Cristo (uma das peças salvaguardadas pela UAMOC, mais tarde incorporada na fachada do Posto de Turismo)

“A batida fundamental da identidade patrimonial tomarense reside precisamente nesta permanente e corajosa resistência cívica contra o esquecimento.”

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